Não diga: eu te amo


Revolta geral. Eu sei, eu sei. Todo mundo gosta de ouvir e de dizer eu te amo. Que Lindo! Que […]


Por: cristiano | postado em: 12 de junho de 2013
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Revolta geral. Eu sei, eu sei. Todo mundo gosta de ouvir e de dizer eu te amo. Que Lindo! Que meigo! Mas de acordo com os rigores da gramática normativa, isso é inadequado.

Por quê? Vejamos: Em seu dia a dia você diz “tu gostas”? Não. Diz apenas “você gosta”. Pois é, então este é o problema. O “te” de “eu te amo” pertence à família do te, ti, contigo, que você nunca usa.

O que você, eu e quase o Brasil inteiro usa é o você. E sabe qual a família de “você“? Todos os pronomes da terceira pessoa do singular, ou seja, seu, sua, se, si, consigo, o, a, lhe. Aliás, sabe o que é mais problemático? Misturar tu e você, ou seja, segunda e terceira pessoa: “Eu te amo, gatinha, mas seu pai não gosta de mim”. Ou: “Eu te amo, amo tudo o que você faz”.É fácil perceber que tu e você (e outras terceiras pessoas) não ficam bem juntos.

Mas o que fazer com os quase duzentos milhões de brasileiros que dizem (ou diriam, se tivessem a quem) “eu te amo” no dia 12 de junho?

Bom, a eles a sugestão: falem, gritem “eu te amo“. Não percam essa oportunidade, nunca. Nunca mesmo. Afinal, a gramática que define o que é certo ou errado, no que se refere à linguagem, não deveria interferir em assuntos do coração.

É verdade que ela condensa a atividade intelectual de muitas gerações de estudiosos da linguagem humana. Mas não podemos considerar a gramática tradicional uma Bíblia – sagrada e infalível. A linguagem humana merece ser investigada, porque ela busca compreender a importante relação entre língua e pensamento, que tantas consequências traz para o relacionamento entre as pessoas (e o Dia dos Namorados bem o demonstra!).

Sim, a linguagem e seu funcionamento devem ser investigados, mas sem a visão maniqueísta de que tudo se resume a certo e errado; sem a postura crítica, policialesca e anticientífica de que os desvios da norma culta são crimes. Afinal, desde o nascimento da Linguística moderna, no início do século XX, a noção de erro vem sendo repensada. Ao invés de dizer que uma dada maneira de falar é errada, tem-se preferido dizer que ela é diferente, e que, embora se desvie do que prescreve a Gramática Tradicional, ela revela critérios lógicos e coerentes.

Eu sei que o peso da tradição gramatical poderia nos levar a evitar certos usos e expressões. Mas, vamos lá: Coragem! Diga “Eu te amo“, mesmo sabendo que a Gramática Tradicional prescreveria “Eu amo você“. Diga, então, “eu te amo” por duas boas razões: para subverter uma ordem estabelecida há séculos e também para fazer alguém muitíssimo feliz!